Faltam quatro meses para o fim de 2026. Para a maioria das empresas, o orçamento de 2027 ainda não existe como documento, existe como intenção: “a gente monta em dezembro, como sempre”. O problema é que dezembro é tarde demais para um orçamento que devia orientar decisões que começam a ser tomadas em outubro e novembro.

O EY Budget Check Point 2025, que avalia a maturidade dos processos financeiros de empresas na América Latina, encontrou que a data média de início do planejamento orçamentário é agosto, com encerramento por volta de 12 de dezembro. Ou seja: mesmo as empresas dentro da média já deveriam ter começado. Quem ainda não começou não está atrasado em relação a um ideal abstrato, está atrasado em relação à própria média de mercado.
O estudo ouviu 117 empresas da América Latina, com o Brasil como segunda maior base de respondentes, atrás apenas do Peru, em setores como manufatura, agronegócio, energia, bancos e serviços profissionais. A maioria dos respondentes (56%) ocupa posição de gerência financeira, o que dá ao levantamento um retrato de quem de fato constrói o orçamento na prática, não apenas de quem o aprova.
O custo real de orçar em dezembro
Um orçamento fechado em dezembro para vigorar em janeiro tem duas semanas úteis de folga, no máximo, entre a definição das premissas e o início do ano fiscal seguinte. Isso significa que decisões estruturais (contratação de equipe, renegociação de contrato com fornecedor, revisão de precificação, plano de investimento) chegam ao ano novo sem tempo de execução, e o primeiro trimestre vira um período de ajuste, não de execução do plano.
O mesmo estudo da EY aponta que apenas 33% das organizações avaliadas têm um modelo de orçamento em nível estabelecido ou avançado. A maioria opera no que a literatura de controladoria chama de orçamento incremental: pega o ano anterior e aplica um ajuste percentual, sem revisar premissa por premissa.
Orçamento feito em dezembro não orienta o ano seguinte. Documenta o que a empresa já decidiu fazer no impulso.
O que a pesquisa revela sobre a maturidade do processo, não só do prazo
O problema descrito pela EY Budget Check Point vai além de quando a empresa começa a orçar. Apenas 27% das empresas entrevistadas conseguem alinhar seus objetivos estratégicos ao orçamento, e apenas 26% usam critérios padronizados (chamados de drivers orçamentários) para todas as áreas da empresa, em vez de cada área projetar seu próprio número com metodologia própria.
Isso ajuda a explicar por que orçamento tende a falhar mesmo quando é feito com antecedência razoável. Segundo a pesquisa, as três falhas mais recorrentes no processo orçamentário são subestimar ou superestimar gastos (23% das empresas), subestimar ou superestimar receita (22%) e não atualizar as premissas de projeção de despesa, mantendo o histórico do ano anterior como referência (18%). As três se conectam: sem driver padronizado e sem revisão de premissa, o orçamento vira uma extrapolação do ano passado com um percentual de ajuste aplicado por cima.
O recorte de tecnologia da pesquisa também é relevante para quem já usa IA em outras áreas da gestão: segundo a EY, soluções de IA generativa aplicadas à coleta de dados, análise de variações e geração de relatórios semiautomáticos podem trazer entre 20% e 30% de ganho de eficiência no processo orçamentário, chegando a até 90% em processos ponta a ponta de planejamento e análise financeira bem estruturados.
O que precisa estar decidido antes de outubro
Não é preciso ter o orçamento fechado em agosto. É preciso ter, até o início de outubro, um conjunto mínimo de premissas definidas para que o fechamento de dezembro seja formalização, não criação.
Rolling forecast: uma alternativa ao orçamento fechado em dezembro
Uma parte das empresas que sai desse ciclo de atraso crônico adota o rolling forecast, ou orçamento contínuo: em vez de um orçamento fixo de janeiro a dezembro, definido uma vez por ano, a previsão é atualizada em ciclos regulares, geralmente trimestrais, sempre olhando para os doze meses seguintes.
Isso não elimina a necessidade de uma âncora orçamentária para 2027. Elimina o problema de a empresa ficar refém de uma decisão tomada uma única vez em dezembro e sem revisão até o dezembro seguinte.
O ponto prático para setembro
A pergunta não é se o orçamento de 2027 vai existir, ele vai existir de um jeito ou de outro. A pergunta é se ele vai ser construído com tempo para orientar decisão, ou fechado às pressas para justificar decisões que a empresa já tomou no automático enquanto esperava dezembro chegar.
A Hand estrutura o ciclo de planejamento orçamentário dentro da gestão compartilhada.
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